Era
uma vez um um.
Ora
isto não parece nada estranho, mas é.
Porque
se começarmos a história assim, ficamos com a ideia de que há mais do que um
um, o que não é verdade. Um há só um.
Portanto,
recomecemos.
Era
uma vez o um.
Pela
mesma ordem de razões, já nem vou dizer que era uma vez um dois
nesta história. Porque embora se trate de um dois, parecendo um
número mais acompanhado do que o um, a verdade é que também só há um
dois, o que faz dele um ser tão solitário como o primeiro.
O
primeiro? Eu disse o primeiro? Não. Pensando positivamente,
o primeiro será o zero (nada de pensamentos negativos,
para evitar perder-me lá atrás no menos infinito, onde nem se sabe sequer
como as histórias começam). Dizia eu, então, que o primeiro será o zero,
embora pareça bizarro que coisa nenhuma possa ser o primeiro
seja lá do que for e tenha tanta importância neste mundo. Mas é a verdade
dos factos. Com isto tudo, já perceberam que o um é que é o segundo.
E, claro, o dois é o terceiro.
Apresentadas as personagens, avancemos o possível com tão pouco...
Ora
bem, os três, quero dizer (para não haver confusão), o zero,
o um e o dois, encontraram-se para tomar chá e pensar nas
coisas da vida.
Ai,
dizia
o zero,
nada me corre bem! É espantoso como nenhuma coisa boa acontece,
como ninguém me dá valor, como este vazio, esta (in)existência
se prolongam sem qualquer solução à vista!
O
um, compadecido com a posição do zero, (à esquerda,
naturalmente, e sem capacidade absorvente), tentou animá-lo, mas com
pouca convicção, pois também ele estava
a passar um momento único e difícil sentindo-se completamente
neutro e invisível: Oh zero, um dia destes vais descobrir
que isto não é nada, que tudo se irá resolver num instante. Duma
coisa podes estar certo, um amigo compreensivo é a única coisa
que pode ajudar numa altura destas. E, olha, mais vale um um
na mão do que um dois a voar...
O
dois, farto daquele diálogo sem rumo, e acossado pela insinuação
do um, furtou-se ao triálogo triste que poderia ter
nascido ali e recorreu ao monólogo para expressar
o seu duplicado enfado: Mas que par vocês me sairam!
Que dupla inconsequente! Que tal o dobro da luta para sair do dilema?
Lamúrias são só um dueto de queixumes... Eu cá vou-me embora
desta história parada! Bom proveito para o
duelo de lamentações! Quem sabe encontro por aí o três
para uma sequência com futuro. Não há duas (dois) sem três...
e dois olhos vêem melhor que nenhum ou que um, rematou
em jeito de vingança, fazendo reverter a seu favor a sabedoria popular sempre
à mão de qualquer um (ou dois, ou mais).
E
esta história não tem um fim, porque seria preciso saber o que
aconteceu ao dois e ao três, talvez ao quatro e assim
sucessivamente... até mais infinito.
O
melhor é não esperar... e ir com eles para ver! Para fazer acontecer...
Os textos
podem ser utilizados com indicação do nome da autora
Teresa Martinho
Marques