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Lá
na minha escola há muitos gatos nos telhados, que adoram espreitar para
dentro das salas de aula... É
verdade! Não estou a inventar! Quando
era pequenina, uma professora minha costumava chamar “sabões” aos
meninos que atropelavam os outros, antecipando todas as respostas certas
sem deixar ninguém pensar. E
tudo o que se segue é a mais pura das verdades!
OS
GATOS SABÕES
Eram
gatos, mas iam à escola. Ou, melhor, nasciam e viviam na escola. Não
morriam na escola, porque os gatos têm sete vidas e nesta história não
morre ninguém.
Não
precisavam de ser obrigados, não tinham cadernos, nem livros, nem
canetas. Só cabeça, orelhas espetadas, uns bigodes deliciosos, esticados
como antenas e uma curiosidade várias vezes maior que eles próprios,
muito habitual nos gatos.
Tinham
de fazer um esforço grande pois passavam directamente da infância, em
que só brincavam nos telhados, sempre debaixo do olho das mães, para o
segundo ciclo, sem passar pelo primeiro (a escola do primeiro ciclo não
ficava longe, mas tinham receio de se aventurar até lá). Concluído o
sexto ano passavam para o terceiro ciclo, o que, para eles, era
praticamente um curso superior! Mas como viviam ali, repetiam os anos e as
lições sempre que lhes apetecia fazer revisões da matéria dada.
Ouviam
os professores e os alunos com muita atenção e guardavam tudo na memória.
Sabiam tudo de cor, que é o mesmo que dizer que guardavam tudo no coração.
Antigamente pensava-se que era aí que se escondiam as coisas de que nos
lembramos e aquelas de que não nos lembramos, até mais tarde inventarem
que era na cabeça. É por isso que ainda hoje se usa a palavra deCORar
e deCORação, porque COR é coração (mas talvez por ser
também cor, decorar pode ser, enfeitar, ornamentar, embelezar, “pôr
decorações” que agora, aqui, já não significa acto de reter na memória
mas, sim, enfeite, ornamento...).
Vocês
podem achar tudo isto muito confuso, o que é natural, mas os gatos, que já
tinham alguns anos de escola,não achavam.
Durante
o primeiro ano só assistiam às aulas de Língua Portuguesa que,
obviamente, era uma língua estrangeira para eles (miauês é a língua
materna, e as mães e os pais é que são responsáveis pelas lições). Só
depois desse ano se sentiam preparados para entender completamente aquele
linguajar estranho que se falava dentro das salas de aula.
Só
começavam a frequentar Inglês lá pelo terceiro ano de aulas, pois uma língua
estrangeira, para começar, era mais do que suficiente. História
fazia-lhes confusão, mas achavam divertido. Adoravam aquela parte em que
aprendiam que no antigo Egipto eram considerados Deuses e quem os matasse
era castigado com a pena de morte! Como tinham muito “jeito de patas”
adoravam as aulas de Educação Visual e Tecnológica. O trabalho
preferido era fazer, com as unhas, esculturas na madeira. Educação Física?
A preferida... nem vale a pena explicar porquê. Mas Ciências da Natureza
também estava no top das preferências. Especialmente no quinto ano onde
a bicharada era o tema principal. Nessas alturas tinham pena de não falar
bem a língua portuguesa, pois havia tantas coisas que podiam ensinar e
que não vinham nos livros! Educação Musical não ficava atrás, com a
queda que tinham para cantar à luz da Lua, por tudo e por nada...
Mas
o mais estranho, acreditem ou não, é que eram excelentes alunos na
disciplina de Matemática e de Física. Até parecia que tinham uma queda
especial para os números e para resolver problemas, desafios, enigmas e
outras coisas semelhantes. Por exemplo, já viram um gato a olhar para o
alto, medindo a distância para calcular o tamanho do salto e acertar à
primeira vez? Pois é... se for um gato da minha escola está a observar a
forma geométrica do obstáculo, a fazer uma estimativa da altura, para
depois calcular a força que terá de imprimir ao impulso, de forma a
cobrir essa distância na vertical, e mais um bocadinho, para consegui
apoiar-se no topo. Os gatos da escola faziam isso melhor que todos os
outros... os outros só usam o instinto e às vezes falham... os nossos
nunca!
E
foi assim que, na cidade, cresceu uma geração de gatos espertos e cultos
que apanhavam ratos quase só de olhar para eles (pobres ratos!), e faziam
muito mais coisas que não tenho espaço, nem tempo,
para contar aqui!
No
final só lhes sobrou uma dúvida: estaria correcto o título da história?
De
tudo o que haviam estudado, lembravam-se bem que, com os sabões, se
lavava a cara (não a deles, que água gostavam dela à distância... ou
então para beber)... mas não tinham a certeza se essa palavra também
servia para adjectivar o elevado estado cultural
a que haviam chegado!
Espreitaram
durante muitos anos à janela da Biblioteca,
mas nunca ninguém abriu um dicionário nas páginas onde se encontravam
as palavras “sabichão”, “sabedor”,
“sábio” ou “sabido” que lhes parecia serem as mais adequadas.
Não
desconfiaram, até certa altura, que a palavra “sabão” também
significava “grande sábio” (de saber+-ão) o que era, está
bom de ver, um adjectivo bem mais elogioso do que qualquer um dos
anteriores.
E
até eu, confesso, levei quarenta anos para abrir o dicionário nessas páginas,
pois toda a vida pensei que aquilo era uma palavra inventada, uma
brincadeira da professora. (Ou talvez nem ela soubesse o que nos estava a
chamar...). Foi quando eu abri o dicionário que os gatinhos finalmente
puderam satisfazer a sua curiosidade: afinal eram mesmo uns gatos muito
sabões!
Os textos
podem ser utilizados com indicação do nome da autora Teresa Martinho Marques
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