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Acabei
de me lembrar agora de uma amiga que um destes dias me disse que gostava
muito de mim e queria que eu soubesse, porque as coisas bonitas deviam
dizer-se logo às pessoas quando se sentiam e não se podia esperar.
As palavras dela entraram dentro de mim, andaram à
voltas na minha cabeça e sairam transformadas em
uma história com pés e asinhas...
Era uma vez
uma borboleta e uma joaninha.
Tanto uma
como a outra apreciavam a calma dos jardins, o aroma das flores, a paz e
tranquilidade do verde.
Gostavam
das cores da praia... mas só a borboleta se aventurava sozinha por
esses caminhos. A joaninha precisava de companhia e não gostava de
aventuras.
A borboleta
gostava de ver o mundo do ar, de viajar, de experimentar o néctar de
muitas flores.
A joaninha
gostava de passear com os pés assentes no chão, nas folhas, nas
flores... só voava se a obrigassem, ou se alguém precisasse dela:
outros bichinhos, por exemplo. E só dava passeios pequeninos, que não
a levassem para muito longe da sua casinha. Percebe-se assim que nem a
canção “voa joaninha voa que o teu pai foi a Lisboa” lhe desse
grande ânimo para voar até à cidade grande.
A borboleta
procurava sempre ir mais longe... tão longe quanto as suas asas o
permitissem. Porque sendo borboleta era também frágil. O seu coração
é que era forte e ansiava por conhecer o mundo. Mesmo sem companhia.
Porque às vezes a companhia era um peso nas viagens...
A joaninha
tinha asas. Pois tinha. Mas estavam bem escondidas para ter desculpa
para não voar. Voava então dentro dentro de si e inventava coisas que
mais ninguém via nem sabia.
Viajava sem
sair do mesmo lugar. Era só fechar os olhos.
Às
vezes podia ver-se escondida, muito sossegada, como se não fosse nada
com ela. Mas as canções e os poemas que lhe vinham à mente nessas
viagens oferecia-os a uns pássaros amigos. E o jardim enchia-se de música,
cantada por outras vozes.
Um dia, por
coincidência, a borboleta pousou numa flor onde estava a joaninha.
Gostou logo dela sem saber muito bem porquê e contou-lhe as mil
aventuras de que era feita a sua vida. Como se se conhecessem desde
sempre.
A joaninha
olhava para ela com admiração. Porque era bonita, porque era forte,
porque era corajosa.
Não que
quisesse ser como ela, porque adorava ser joaninha, mas sentia que a
borboleta a completava, de alguma forma que não conseguia explicar com
palavras. Só com um poema, uma história ou coisa assim. Parecia-lhe
uma amiga de longa data, sem perceber donde lhe vinha aquela sensação.
A
borboleta, habituada ao mundo e a tantas coisas que ninguém
imagina, percebeu nos olhos sossegados da joaninha o carinho que nascia,
mas viu logo que não tinha ali uma companheira para as viagens. Era
mais uma companhia para repousar o espírito entre aventuras. Foi por
isso que não lhe disse: vem daí voar comigo.
A joaninha
viu nos olhos da borboleta que ela a compreendia e aceitava assim mesmo:
pequenina, solitária, de asas escondidas e um céu por dentro. E a
admiração ainda cresceu mais.
A Amizade
tem destas coisas. Não se encontravam muito, a borboleta e a joaninha,
mas estavam frequentemente nos pensamentos uma da outra.
Às vezes,
mesmo sem combinar nada, cruzavam-se numa folha ou numa flor e trocavam
uma com a outra segredos, desejos, coisas simples ou complicadas,
conforme a estação do ano, os sentimentos ou as viagens de cada uma.
Encontros que pareciam por acaso, mas que acrescentavam sempre uma cor
nova à amizade e à vida de ambas.
Portanto
talvez não fossem por acaso.
Foi assim
que numa manhã fresca de Primavera, com um orvalho miudinho a enfeitar
um amor-perfeito como colar de diamantes, se encontraram por um breve
instante quando matavam a sede. Olhando nos olhos a amiga, como quem
olha para um espelho de água, a borboleta disse: sabes joaninha, gosto
muito de ti...
Por
momentos o orvalho confundiu-se com o brilho dos olhos, primeiro da
borboleta, depois da joaninha. Deram-se duas mãos das muitas que
tinham, o sol espreguiçou-se e disse olá e a borboleta voou para
outras paragens, como sempre em busca de respostas a tantas perguntas,
na esperança de encontrar alguma perdida no meio de alguma flor... (não
contei aqui um pormenor importante: a borboleta também confessou que
gostava muito do rouxinol que vivia no jardim e de outra borboleta com
quem viajava muito... todos três eram especiais amigos. Mas isto é
outra história que não se pode contar em poucas palavras no meio de
outra história! )
A joaninha
voltou para a sua casinha (partilhava com a borboleta as perguntas, mas
procurava as respostas de outras maneiras...) e sentou-se com o coração
invadido por uma ternura e uma alegria de muitas cores que faziam o
vermelho das suas roupas parecer desbotado. Era assim como se fosse um
arco-íris que lhe saía do peito e lhe dava vontade de chorar e de rir,
tudo ao mesmo tempo.
Na outra
ponta do arco-íris não se escondia um pote de ouro. Estava, como se
pode adivinhar, o coração do seu joaninho, a família, o coração da
borboleta, o do rouxinol , os de mais uns poucos mas bons amigos.
Nesse dia
especial, era o coração da borboleta que sentia bater no seu, através
de uma ponte colorida e invisível. Pode parecer estranho, mas juro que
é verdade.
Foi então
que na cabeça da joaninha começou a desenhar-se um poema grande que não
era bem um poema, mas mais uma espécie de história. Era uma prenda
especial para a borboleta. Era a sua maneira de lhe dizer: gosto tanto
de ti como tu gostas de mim.
Escreveu-o devagarinho numa folha verdinha e tenra
do amor-perfeito onde tudo acontecera e guardou-a junto às asas. Subiu
para um cimo da mais alta flor do jardim e deixou-se ali ficar à espera
do dia seguinte. À espera da borboleta. Vencendo o medo da noite. No
pensamento saboreava o nome da flor "amor-perfeito" como mais
um daqueles acasos sem explicação.
Ia
oferecer-lhe a folhinha verde como companhia para todas as viagens.
Uma parte de si, criada especialmente para a amiga.
Porque ela
era muito especial e precisava de o saber.
Conta-se
(quem sabe o que é verdade?) que ao entregar a folhinha à borboleta, a
fada do jardim as encantou e, a partir daquele momento, passaram a ser
capazes de sentir, olhar e viver as coisas como se fossem uma só, ainda
que nada nos hábitos repetidos das suas vidas se tivesse modificado.
Mas verdade
verdadinha é que elas já conseguiam fazer isso muito antes desse
momento, logo quando se conheceram... (essa coisa de acrescentar uma
fada à história, é de quem não percebe que a Amizade tem magia e
encanto suficientes para explicar todas as coisas inexplicáveis).
Uma coisa
é certa: a joaninha continuou a ser uma joaninha e a borboleta uma
borboleta. Porque o encanto dos jardins nasce das diferenças entre
todas as coisas que podemos encontrar neles.
Mas de
tempos a tempos lá podemos vê-las em amenas conversas, esquecidas do
tempo e do mundo... como se os passos de uma se misturassem nos voos da
outra e tudo à volta desaparecesse.
A borboleta
ainda guarda a folhinha verde num bolso especial do peito.
Pode
parecer mentira, mas a verdade é que a folha nunca murchou.
Os textos
podem ser utilizados com indicação do nome da autora Teresa Martinho Marques
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