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O
Gaspar é um cão pachorrento e meigo. Pesa muitos quilos mas não sabe.
Porque os cães não percebem nada dessas coisas de balanças e medidas.
O problema é que, por causa disso, e por causa de nós nem sempre
entendermos muito bem as palavras dos olhos deles, podem acontecer
coisas estranhas. Por sorte, ofereceram-me um dicionário de
olhar-palavras (eu nem sabia que existia um).
Oh
Gaspar! Agora já percebi!
O
Cão que queria ser Gato
Lá
em casa havia três gatos e um cão.
Três
gatos levezinhos, cada um de sua cor, que se moviam de um lado para o
outro quase, quase sem se dar por nada. Trepavam às bancadas da cozinha
só por distracção, para fazer exercício, ou para comer quando a fome
aparecia a dizer olá nas suas barrigas.
O
Horácio era um senhor, cheio de humores. Para os da casa não havia
surpresas, só mimos, para as visitas... dependia da disposição do
dia.
A
Chica era uma princesa tímida... nem se via. Para os da casa, tudo.
Para as visitas, quase nada! A verdade é que tinha as suas razões, e
como não são umas razões coloridas, não me apetece falar delas
agora.
O
Pestinha... bem... era um verdadeiro pestinha. Para os da casa,
partir o que se podia, por entre brincadeiras e saltos. Para as
visitas, abraços e trincas. Olhava para todos como se não estivesse a
olhar para ninguém e o seu olho azul ria-se a toda a hora.
A
vantagem de ser gato é, sobretudo, pesar pouco e ter o pêlo muito
muito macio. É uma combinação infalível para ocupar, sem pedir licença,
todos os colos possíveis. Todos os pretextos são bons: a casa de banho
(sentamo-nos e eles chegam), a televisão (sentamos-nos e eles não se
importam com o programa que escolhemos), a cama (bem... é tudo tão
fofo e quente numa cama que o colo nem faz muita falta...).
Por
tudo isto, e juntando algumas horas de liberdade num jardim, os gatos
parecem sempre felizes e em paz. Pedem pouco, e quando o fazem não é
bem um pedido, é mais uma exigência. Geralmente a resposta é sim, até
porque há miados que não apetece ouvir por mais de cinco minutos...
E
então o cão?
Não
foi esquecido.
O
Gaspar tinha daqueles olhos castanhos que habitualmente dizemos serem
meigos e doces. Ou era isso que parecia. A mim sempre me pareceu ver lá
mais qualquer coisa, mas não sabia muito bem o quê. Às vezes parecia
uma pergunta, outras um lamento. Em certos momentos parecia uma lágrima,
um cinzento escondido dentro do castanho. Isso acontecia muito quando
tentava trepar por nós acima como se pretendesse ir discretamente, sem
repararmos, até ao nosso colo e lá se aninhar perdido para dormir e nós
lhe explicávamos com muitas palavras que não podia ser, que ele era
muito grande, muito pesado, muito comprido, que não cabia, que não
aguentávamos com o peso... Quando a insistência era maior, o último
recurso era dizer bem alto e com um ar zangado: P’ró chão! P’ra
baixo! Não salta! E ele ia. E ele parava. Deitava-se, punha a cabeça
entre as patas da frente e ficava a olhar. Percebi depois que ele não
ficava a olhar, ficava a pensar, a falar, a dizer coisas. Era nesses
momentos que os olhos pareciam ter mais qualquer cor lá dentro.
O
Gaspar via os gatos a subir para os colos da casa e não entendia a
diferença. Penso até que durante muito tempo acreditou que gostavam
mais dos gatos do que dele e pronto, não havia remédio para tudo o que
sentia. Deixou de acreditar nisso, porque afinal de contas era muito
mimado, faziam-lhe muitas festas e, na verdade, num dia em que havia
ficado sozinho em casa tentou saltar para a bancada da cozinha atrás do
Pestinha, mas não conseguiu. Percebeu então que devia haver uma
diferença, mas não entendia qual. Estaria gordo de mais? Precisaria de
fazer uma dieta? Gostando de comer como gostava, foi coisa que nem lhe
passou pela cabeça. Queria um colo, pois queria, mas um sacrifício
desses tornava o colo ainda mais distante! Nunca conseguiria recusar a
comida que lhe davam... Ou seria outra a razão? O que tinham as outras
patas da casa, que ele não tinha, que lhes permitia passar o dia mais
perto do céu, deixando-lhe a ele apenas o chão, o cesto, os pés?
Foi
sorte eu ter percebido. E quando percebi, chamei-o à parte e
expliquei-lhe tudo. Que ele era um cão, lindo, grande, comprido,
pesado, único e os outros eram gatos, uma coisa muito diferente.
Perguntou-me o que era um cão, o que era um gato e eu lá lhe tentei
explicar que um cão era uma espécie de coração grande, bom e altruísta,
em quem se podia confiar, uma prenda do céu para nós, mas que tinha de
viver mais perto do chão vigiando os nossos passos, ajudando-nos em
todos os momentos. E depois
disse que um gato era assim uma espécie de quase-pássaro, sem asas,
sempre a ver se chegava mais alto, que fingia não se importar com nada,
embora se preocupasse com tudo, para que ninguém o aborrecesse muito.
Uma espécie de gafanhoto com pêlos que adorava saltar, fugir, brincar!
Foi
asneira.
Tive
de ouvi-lo a chorar por muito tempo lamentando a sua sorte de cão sem
patas de gafanhoto ou quase-asas, feito cobra rastejante. Cão ainda por
cima dos grandes (ele sabia que havia uns pequeninos que eram
quase-gatos) e comprido, que não cabia no colo de ninguém. Por entre
os lamentos que ninguém ouvia, só eu, sussurrava que queria ser um
gato, era só isso que queria, queria um colo, um céu só para ele, um
armário alto para dormir.
Como
se resolve uma coisa assim? Não se resolve.
Era
preciso que voltasse a gostar de ser cão e dos grandes. Que percebesse
que a diferença tinha lá dentro coisas boas para ele que os gatos também
sonhavam e não tinham.
Rebolei
com ele pela relva do jardim. Pelo chão da casa. Abracei-o. Deitei a
minha cabeça em cima do corpo dele. “Tu és o meu colo” disse-lhe.
“Só tu tens tamanho para isso”. A seguir levei-o à praia e mergulhámos
os dois debaixo das ondas frias, corremos até cair na areia quente atrás
de bolas que umas vezes havia e outras não. Não havia gatos por perto.
Mas havia outros cães. E ele percebeu.
Os
gatos lamentam o medo que têm da água. Não falam disso muitas vezes,
mas é uma mágoa que os aflige nos dias de calor, sobretudo quando a
casa se esvazia e quem lá mora regressa cheio de areia nos pés e de
sal no corpo.
Acho
que o Inverno este ano foi longo e as memórias do Verão passado
apagaram-se dentro do Gaspar. Choveu muito, saímos pouco. Trabalhei
demais. Às vezes o tempo passa muito depressa e não damos pelo
caminho. Não damos pelos olhos dele. Os olhos do caminho são para ser
olhados de frente, todos os dias.
Olho
mais vezes para os olhos do caminho agora. Para os do Gaspar também.
Ultimamente
é só mesmo um castanho doce e meigo o que vejo dentro deles. Uma paz
contente, às vezes cortada
por um olhar discreto, mas cheio de palavras, dirigido ao gato aninhado
no meu colo: “Deixa-te estar aí. Quando ela estiver cansada, é no
meu que se vai aninhar... e depois há o Verão, a praia... uma coisa cheia de um céu de água chamado mar, uma luz
quente, colos de areia, asas frescas
e voos longos que tu nunca vais saber o que é, nem eu te consigo
explicar!”
Os textos
podem ser utilizados com indicação do nome da autora Teresa Martinho Marques
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